TS EDITORIAL VER CAPA DA EDIÇÃO #148
MENSALEIROS RETORNAM
Seis anos depois, volta à cena a roubalheira petista
A.S.
03/04/2011
"...contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe : ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo."
Oswald de Andrade, Manifesto Antropófago, 1928
"O mensalão nunca existiu". Com essas palavras Zé Dirceu, o ex-ministro da Casa Civil do primeiro governo Lula, resumia a estratégia segundo a qual se basearia a sua defesa contra a acusação de ser um dos mentores do maior esquema de corrupção e compra de apoio político da história deste país. Neste sábado, o relatório da Polícia Federal traz à cena fatos que abalam de forma definitiva a tese de Dirceu e do PT.
Segundo informações divulgadas pela revista Época, o relatório da Polícia Federal conclui que existiu o esquema de desvio de dinheiro público para a compra de apoio político no Congresso durante o primeiro governo Lula. Com 332 páginas, o documento foi produzido por ordem de Joaquim Barbosa, ministro do Supremo Tribunal Federal que cuida do caso.
O relatório da Polícia Federal deve dar um novo rumo ao julgamento dos acusados no caso do mensalão, que até o momento parecia fadado a um lento e silencioso fim melancólico. O documento baseou-se em três perguntas: O mensalão foi financiado com dinheiro público? Houve mais beneficiários do valerioduto? Qual era o limite da influência de Marcos Valério no governo petista? Segundo a Época a investigação "dissolve essas incertezas" ao mostrar que o esquema de corrupção foi financiado com dinheiro público – algo entorno de R$ 55 milhões – destinado a comprar dezenas de parlamentares para votar com o governo federal. Ainda segundo o relatório, o lobista Marcos Valério ganhou tamanha influência que tinha acesso ilimitado aos mais altos círculos do poder em Brasília.
A lista dos políticos beneficiados pelo esquema de Marcos Valério é extensa. São mais de 40 – entre deputados, senadores, prefeitos e governadores. O senador Romero Jucá, líder da bancada governista, o deputado petista Vicentinho e o ex-prefeito de Belo Horizonte, atual ministro do governo Dilma, Fernando Pimentel são alguns dos novos nomes citados pela PF. O novo nome mais contundente é o de Freud Godoy, segurança de Lula de 1989 a 2003. Segundo a revista, Godoy teria recebido R$ 98 mil do valerioduto. A comprovação de envolvimento de uma figura tão próxima a Lula, como é o caso de Freud Godoy, torna cada vez mais inverossímil a tese de que o presidente Lula "não saiba de nada".
Assim como o envolvimento do Godoy parece comprometer Lula, outro fato que merece destaque é a negociação, em 2003, entre o banqueiro Daniel Dantas e o PT. Segundo a reportagem da revista Época, Dantas, após se reunir com o então ministro Zé Dirceu negociava com o Tesoureiro do PT, Delúbio Soares, o apoio do governo em sua disputa pelo controle dos principais fundos de pensão do país. Delúbio teria dito, em reunião com Dantas, que o partido estava com um "deficit" de 50 US$ milhões, este seria o preço do apoio do governo ao banqueiro. Dois contratos no valor de 25 US$ milhões foram selados entre a Brasil Telecom, controlada por Dantas, e a agência DNA de Marcos Valério. O dinheiro não chegou a ser repassado, pois, na época o esquema viria a público, mas o teor da negociação por si mesmo já é absolutamente espantoso.
As revelações, que ainda contêm dezenas de outras informações, atingindo outras tantas negociatas entre empresas e políticos da cena nacional, sempre intermediadas por Marcos Valério, reacendem a crise política desencadeada em 2005 na época das primeiras denúncias sobre o mensalão petista. Como dizíamos em 2005, a crise política é expressão superestrutural das contradições econômicas que crescem dia após dia no Brasil. Submissa aos interesses do grande capital internacional, a burguesia nacional é incapaz de formular um projeto para o país, enquanto teme, por outro lado, o proletariado urbano brasileiro. Sem projeto, vê-se obrigada a entregar as rédeas da política nacional à casta petista, que pratica o mais deplorável saque dos cofres públicos, envergonhando o mais desavergonhado dos ladrões.
Este é o preço que a casta petista de Lula, Zé Dirceu, João Paulo Cunha, Delúbio e companhia cobra para tutelar a classe trabalhadora brasileira. Não é o mensalão uma farsa, como quer fazer crer Dirceu, ao passo que o progresso social e econômico petista, isto sim, é uma farsa. Trata-se de uma ilusão passada para as massas e que somente ainda não ruiu porque nenhum partido da esquerda foi capaz de reunir forças e romper o bloqueio cutista-petista. Também não deixa de ser assustador pensar que será este mesmo partido dos traidores dos trabalhadores, capitaneando um congresso corrupto e imoral, que vai levar a cabo a chamada reforma política. Que esperar? Até quando essa farsa vai continuar?